Moradores tradicionais do interior da Ilha cultivam últimos cafezais e método artesanal de moagem

Fonte: ND_Online

Principal produto agrícola entre os séculos 18 e 19, quando Florianópolis ainda era Desterro, o café sombreado desapareceu das encostas e planícies locais pela própria abundância. Com tamanha fartura e consequente preço baixo, a suavidade do sabor que garantia a preferência no mercado europeu foi insuficiente para dar continuidade ao ciclo iniciado pelos primeiros navegadores que aportaram na Ilha, espanhóis e portugueses, e trouxeram com eles as sementes colhidas nos altiplanos da África.

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Rosa dos Santos Cruz peneira os grãos em Santo Antônio de Lisboa

 

Depois das primeiras colheitas no Brasil colônia, as sementeiras de espalharam de Norte a Sul de Florianópolis. Férteis, as terras da região se transformaram em “imenso cafezal”, como descreve o historiador Virgílio Várzea na obra Santa Catarina - A Ilha, com primeira edição em 1900. Erradicado no Brasil para abrir caminho a outras variedades, mas enraizada na memória dos moradores mais antigos, o café sombreado é o mesmo ainda cultivado em escala industrial sob as florestas da Colômbia, introduzido pelos espanhóis. E que proporciona uma das mais saborosas bebidas quentes do mundo.

Sabor e aroma jamais esquecidos nos recantos da cidade nova, onde o pilão, a peneira e o torrador mais do que meros objetos de decoração, representam símbolos da cultura cafeeira presente na memória oral e usual de quem é do interior. Privilégio compartilhado por pessoas como Lica Rosa, na Vargem Pequena, dona Rosinha Cruz e as vizinhas Valdete, Ciça e Carmem, na Barra do Sambaqui, a outra Valdete, na Vargem Grande, a família Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, ou Marlene Lapa, na Caieira da Barra do Sul. Lugares onde a cidade parece crescer sem muita pressa.

Viçoso pela fertilidade do solo e proteção das copas das árvores, o gostinho característico do café sombreado da Ilha não passou despercebido também ao agrônomo Percy Ney Silva, 57, que há 35 anos trocou o ritmo frenético do concreto de São Paulo pelo estilo alternativo, em Ratones.  O sítio onde mora, em meio à fragmentos da mata atlântica do Canto do Moreira, era um dos grandes cafezais da região, consorciado com jabuticabeiras, laranjais, abacateiros e espécies da mata nativa.

 O cultivo à moda antiga, embaixo das copas mais altas, dispensa adubação, irrigação e manejo constante. Outras vantagens são apontadas por Ney, que sugere o resgate da tradicional Festa do Café, realizada em Ratones até o início da década de 1980, como memória cultural da comunidade. A variedade sombreada, diz, é exemplo de sustentabilidade, permite a produção consorciada, evita desmatamentos e  protege o solo de erosões.

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José Alfredo da Silva tem uma pequena plantação na Vargem Pequena

 

Com puro sabor da Ilha

O cheirinho agradável, quase compulsivo, que conduz ao café bem passado no coador de pano e boião de barro começa antes de a água ferver na chaleira sobre o fogão a lenha. A “colheita a dedo”, como é definida a seleção manual ainda nos galhos, é um dos segredos da suavidade do café sombreado cultivado na Ilha, que, pela excelência, chegou a ser exportado para a Suíça, revela o professor Glauco Olinger, 92 anos, engenheiro agrônomo e ex-secretário da Agricultura de Santa Catarina. “É uma das melhores bebidas do mundo”, arrisca-se a dizer.

Na colheita a dedo são retirados, um a um, apenas os grãos maduros, no ponto certo para torrefação. “Tira-se a casca e com uma solução fraca de cal tira-se a mucilagem. Fica a semente pura que, levada ao fogo até o ponto certo, sem torrar, ficava marrom. Depois de moída, proporcionava sabor incomparável”, ensina o professor.

Entre os provadores, este tipo de café é classificado como mild, bebida mole, suave, uma das mais apreciadas do mundo. Durante raspagem dos galhos, ao contrário, são retirados frutos ainda verdes ou em fase de maturação, o que aumenta a produtividade em detrimento do sabor apurado. Misturados, estes grãos resultam em bebida de gosto “duro e seco”.

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Valdete Inácio ainda torra café na Vargem Grande

 

A proteção natural contra ventanias, geadas e ação direta dos raios solares proporcionada pela copa de árvores maiores é outra vantagem do café sombreado, o arábico, originário da África e introduzido nas matas locais pelos primeiros colonizadores, vicentistas e açorianos, a partir do século 18. Protegidos, os frutos crescem e amadurecem de maneira mais uniforme.

Entre as décadas de 1940 e 50, o jovem engenheiro agrônomo Glauco Olinger coordenou um dos maiores plantios, cerca de 30 mil pés, na antiga área rural onde atualmente estão o bairro Monte wVerde e a Cidade das Abelhas, no Saco Grande. Financiado pelo extinto Banco Inco (Indústria e Comércio), que na época era presidido por Genésio Lins e Irineu Bornhausen e gerenciado em Florianópolis por Acari Silva, o projeto previa o reflorestamento da área pertencente à própria instituição financeira, a caminho do Norte da Ilha. “Ia e vinha todos os dias de motocicleta”, recorda.

Plantio financiado por banco privado

Antes da implantação do cafezal do Banco Inco, existiam apenas três ou quatro casas no Saco Grande, aonde se estendia a área rural da Ilha. Lá, foram instalados galpões e sementeiras orgânicas, lembra-se o professor Glauco Olinger, que na época era agente de fomento agrícola do Ministério da Agricultura. As primeiras sementes foram coletadas em cafeeiros na Lagoa da Conceição, onde eram abundantes as plantações de café sombreado, com uma técnica especial.

Eram escolhidos os melhores frutos, maduros e vermelhos, que depois de esmagados entre os dedos eram mergulhados em fraca mistura de água com calcário e secados à sombra e plantados em terreno com adubação orgânica. Seis meses depois, a direção do Banco Inco trouxe Geremia Lunardelli, conhecido na época como o “rei do café”, para conhecer o projeto no Saco Grande, onde a qualidade das mudas impressionou o produtor paranaense.

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Plantação de Manuel da Silva, na Cachoeira do Bom Jesus, é para consumo da família

 

“Ele teimou que as plantas já estavam com mais de ano”, sorri Olinger, que projetou o plantio em arruamento em curva de nível, abaixo das copas das árvores nativas da floresta atlântica do maciço Norte. Depois de pronto, o banco quis pagar o trabalho do agrônomo, oferecendo-lhe em troca parte da terra cultivada. “Como eu já era funcionário público e havia recebido meu salário, doei para o Ministério da Agricultura”, explica. O terreno é o mesmo onde hoje está instalada a Cidade das Abelhas, entre Saco Grande e Cacupé

Das chácaras para pilão e armazéns de exportação

Abundante até a década de 1960 como produto orgânico cultivado de maneira sustentável e moído artesanalmente, o café sombreado teve dupla importância na economia doméstica da Ilha. Praticamente em todos os engenhos e casas havia plantios com duas colheitas mensais e os apetrechos típicos para moagem e torrefação caseiras - pilão, peneira, torrador e fogão a lenha.

O resultado era um pó bem mais denso, aromático, saboroso e barato do que o industrializado. Moeda corrente da época em que a alimentação familiar era toda produzida nas próprias chácaras, o café era pagamento das demais despesas domésticas.  “Papai levava de carro de boi e entregava no armazém do Antônio Macedo, em Santo Antônio. De lá, ele mandava para a cidade”, conta a aposentada Rosinha dos Santos Cruz, 79 anos, que cresceu em meio aos cafeeiros da família e da vizinhança entre o rio Veríssimo e a encosta, na atual rua Isid Dutra, Barra do Sambaqui.

Era tanto café na Ilha, do maciço do Morro da Cruz, no Centro, às localidades mais distantes, de Norte a Sul, que sobrava para o mercado externo, inclusive para a Europa. Na década de 1940, de acordo com a brilhante memória do professor Glauco Olinger, o empresário Ernesto Riggenbach exportou três toneladas do café sombreado local para a Suíça. “Parece pouco, mas foi importante na época. Principalmente pela qualidade”, diz.

Recolhido por comerciantes como Altino Regina de Paula, da Vargem Pequena, o café em grãos era levado de carroça a armazéns intermediários, como os de Antônio Macedo, em Santo Antônio, e Carlito Luz, na Barra do Sambaqui. De lá, seguia para os galpões de Francisco Nappi, no cais do antigo porto de Florianópolis, para torrefação e consumo interno, ou embarcado para o exterior.

Cantoria na colheita

Sorridente como sempre, a aposentada Rosinha dos Santos Cruz, 79, cantarolava entre um sopro e outro para separar as amêndoas secas das últimas palhas, enquanto explicava com paciência para as crianças ao redor mais uma das etapas do processo artesanal de moagem e torrefação do café sombreado, cultivado de forma sentimental por moradores do interior da Ilha.

“Não sou professora para ensinar a ler, mas para ensinar a fazer”,  resume com alegria a moradora da Barra do Sambaqui. Rosinha e a vizinha Valdete Jesus de Lima, 78, são duas das 20 pessoas tradicionais da comunidade entrevistadas para o projeto Cantares e Saberes - Inventário do Patrimônio Imaterial de Santo Antônio de Lisboa - que inclui Sambaqui e Cacupé.

Contemplado com edital do concurso Elizabete Anderle, da Fundação Catarinense de Cultura, o projeto é desenvolvido no Centro Cultural Engenho dos Andrade, na Praia Comprida. As entrevistas foram feitas de casa em casa, de maio a junho deste ano.  Na segunda etapa, até novembro são realizadas oficinas relacionadas à mistura das culturas açoriana, indígena e africana. “Das cestarias à gastronomia”, explica o coordenador Cláudio Andrade, 46.

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Pó moído e torrado na Ilha, pronto para o consumo

 

“O café teve influência marcante na economia. Hoje é um dos elementos da cultura rural da Ilha, e faz parte da base alimentar das famílias mais tradicionais”, completa. Artista plástico, Andrade tem parceria dos músicos Marcelo Muniz, no violão, e Juliano Melego, na percussão. Nos fazeres, conta com a irmã Maria de Lourdes, a mulher Irene e moradores da comunidade nos fazeres, como Rosinha e Valdete, que colheram e torraram café sombreado. Brincando e cantarolando, como antigamente.

De forma lúdica, as oficinas do projeto integram o currículo extraclasse da turma do sexto ano da Escola Básica Municipal Paulo Fontes, de Santo Antônio. “É uma parceria fundamental. Os alunos aprendem a fazer o que garantia a subsistência das famílias tradicionais da Ilha”, explica a professora de história Joseane Zimmermmann Vidal, 36. Depois da aula no engenho dos Andrade, ela e as crianças degustaram de saboroso café colonial, com direito a roscas de polvilho e bijus.

Um dos 14 alunos, Artur Manoel Ferreira, 11, lembra que uma das avós tinha pilão e costumava torrar café em casa, em Cacupé. “Ela ficou doente e não pode mais trabalhar”, disse o menino, que entende a importância da atividade extraclasse. “A gente aprende história com os mais velhos”, explica.  Para dona Valdete, a aula é mais uma distração. “A gente faz o que sabe, eles prestam atenção para aprender e nos divertimos juntos”, sorri.

Governo paga para erradicar

Tão fértil como o solo adubado onde sempre cresceu o arbusto de folhas largas e frutos suculentos, é a própria história do café na Ilha. Depois de longo período de abundância e preço baixo, as plantações começaram a desaparecer na década de 1960 após lançamento do programa nacional de erradicação do governo federal.

Com a criação do IBC (Instituto Brasileiro do Café), a produção familiar perdeu importância no Brasil, e em Florianópolis restaram pequenos cafeeiros para consumo doméstico. “Muita gente ganhou dinheiro ilegal do governo, derrubando mais café do que realmente havia plantado. E hoje praticamente não existe mais café sombreado no Brasil”, lembra o professor Glauco Olinger.

Quase duas décadas antes, no governo Aderbal Ramos da Silva (1947-1951) centenas de homens foram contratados na função de amarradores de cafezais nas regiões produtoras do Estado. A tarefa consistia em sustentar galhos caídos para dar a impressão de robustez às plantações, depois fotografadas para impressionar compradores internacionais.  Há notícias, também, de contrabando e fraudes. Sem o selo oficial que respaldava o produto local no mercado externo, sacas e mais sacas de grãos secos eram desviadas para exportação via Bacia do Prata e vendidas na Europa como café originário de países exportadores, como Costa Rica, Porto Rico, Martinica e Java.  Na área central e entorno a erradicação foi imediata, restando pequenas e médias chácaras no interior da Ilha, engolidas pelo crescente processo de urbanização das regiões mais distantes da cidade a partir de 1980. Em Vargem Pequena, Ratones, Barra do Sambaqui, Santo Antônio e Cachoeira do Bom Jesus, por exemplo, resquícios de cafeeiros são fragmentos florestais e da cultura tradicional da cidade em meio a prédios, condomínios e casas, quase todas sem quintais.

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Dona Rosinha Cruz mostra como "chumbar" o café

 

Vantagens do café sombreado

Produção de internódios mais longos (intervalo entre as gemas de crescimento do caule).

Redução do número de folhas, e folhas com maior tamanho.

Obtenção de bebida mais suave (maturação mais lenta).

Aumento da capacidade produtiva do cafeeiro.

Redução da bienalidade de produção

Menor incidência da seca de ponteiros e da cercosporiose.

Diminuição da desfolha.

Baixo índice de pragas e plantas daninhas.

•Atenuação das temperaturas máximas e mínimas do ambiente.

Menor incidência de escaldadura e geadas.

Aproveitamento da espécie arbórea.

Cultivo consorciado com frutíferas (laranjas, jabuticabas, abacates) e redução da infestação de plantas.

 Controle  natural da erosão.

Cobertura e adubação orgânicas do solo pela decomposição lenta da palhagem.

Características

Coffea arabica L. tem sua origem nas florestas dos altiplanos da Etiópia, antiga Abissínia, e produz bem em áreas sombreadas de altitude e em climas úmidos.

Outra espécie, a  C. canephora Pierre também é originária de sub-bosques africanos, mas das regiões de menor altitude, como  Congo e Gana.

De acordo com estudos do pesquisador Ramalho Nunes, o manejo do café que mais se assemelhe às suas condições de origem possa proporcionar os melhores resultados de qualidade.

 “Altas intensidades luminosas saturam  o aparelho fotossintético do cafeeiro, acarretando  fotoinibição”, escreveu Nunes, em 1993.

O sombreamento, conduzido com a adoção de espécies para consorciamento e espaçamentos apropriados, pode proporcionar resultados satisfatórios quando comparado ao cultivo a pleno sol.

Em muitas partes do mundo, em especial nas regiões próximas do equador como Colômbia, Costa Rica e Java, os cafeeiros procuraram imitar o habitat natural, à sombra.

No Brasil, os primeiros produtores aparentemente não sabiam como se plantava o café em outras localidades e aplicavam técnicas tradicionais de derrubada e queimada da mata em grande escala, como nas lavouras  de cana-de-açúcar e algodão.

Galeria de personagens

 Meu pai sempre cultivou e preparou café sombreado para consumo doméstico e presentear os amigos. Hoje, restaram quatro ou cinco pés no quintal, onde colhemos o que dá. Papai também gostava de novidades e substituiu o pilão por descascador e moedor elétricos, e adaptou um torrador de ferro que ainda utilizo.”

Valdete Inácio, 61, aposentada, Vargem Grande

 Cresci tomando café sombreado torrado e moído em casa. Não temos mais pilão, mas faço questão de cuidar e fazer mudas para espalhar pelo morro e distribuir aos amigos. Os pés mais antigos estão no quintal há mais ou menos 15 anos, estão com frutos, mas está aparecendo uma mancha branca nas folhas.

José Alfredo da Silva, 58, funcionário público aposentado, Vargem Pequena

 Cultivo alguns pés no quintal de casa e distribuo mudas aos vizinhos porque acho bonito. Principalmente na época da floração branca ou dos frutos maduros, avermelhados. Minha irmã também tem pilão e torrador, em Ponta das Canas, e gosta de fazer cafezinho caseiro. É mais saudável e saboroso.”

Manoel Silva, 66, aposentado,  Cachoeira do Bom Jesus

 O pilão era da minha avó, e a mãe também chegou a usar enquanto tivemos cafezeiro no quintal de casa. Estava todo descascado, jogado na rua, mas meu marido recuperou com verniz e ficou bonito. Agora, é objeto de  decoração que nos faz lembrar dos tempos de infância. Lá fora, restaram um ou outro pé de café, acabou tudo.”

Sueli Maria da Silva, 73, dona de casa, Vargem Pequena

postado por José Hélio Veríssimo Júnior em 19-10-2015 15:02:04